Minha história: o Tarô e o acaso — quando os dois se encontram

Tudo tem um começo

Às vezes, alguma coisa entra na nossa vida por acaso, e só muito tempo depois percebemos que aquilo estava apontando para um caminho.

No filme Vidente por Acidente, o ator Otaviano Costa interpreta o protagonista Ulisses. O personagem estava perdido e, na busca para compreender sua vocação, procura uma mulher com cara de charlatã e toma um chá misterioso. Após os efeitos do chá, Ulisses passa a descobrir a missão das pessoas que têm contato com ele. Em uma cena, ele conversa com uma secretária e diz a ela que ao invés de trabalhar naquela empresa, se quisesse ser feliz, deveria ser jogadora de futebol. Tempos depois ele a encontra e constata que tinha razão. A secretária estava super feliz. É um filme leve e divertido. 

E o que isso tem a ver com minha história?

Eu não escolhi as cartas. Elas apareceram numa noite de sábado

Era uma noite de sábado, 11 anos atrás. Eu estava com uma turma em um sítio. Uma amiga apareceu na sala com um baralho na mão perguntando o que iríamos jogar e eu respondi:
– Jogar? Hoje à noite não vamos jogar nada não. Me passa aqui esse baralho. Agora eu vou tirar cartas pra você.

E ela curiosa, perguntou:

– Mas você sabe ler cartas?
E eu, mais que depressa, respondi:
– Sei sim…
Peguei o baralho, embaralhei sem nenhuma técnica e dei para ela realizar três cortes.
Naquela noite, o que eu queria era apenas divertir todo mundo. Contar historinhas. Tudo de forma bastante despretensiosa. Só alegria. Não conhecia nada sobre cartomancia, tarô ou qualquer tipo de oráculo, mas vamos em frente.

Pedi a ela para tirar três cartas. Abri a primeira e fiz um discurso inicial. Na sequência a segunda, e depois a terceira.

Quando terminei, ela perguntou:

– Como você sabe disso tudo?

Respondi sorrindo:

– É tudo brincadeira…

Ela soltou assustada:

– Não é não, tudo que você falou tem a ver com o que estou vivendo.

Não levei muito a sério, mas nessa mesma noite ainda tirei cartas para mais dois curiosos, com a mesma assertividade que tive na primeira tiragem, mas não me impressionei.

Nos meses seguintes, fiz a mesma brincadeira em algumas poucas situações, e sempre a coisa funcionava. Comecei a entender que algo acontecia ali além de uma simples coincidência. Em outro artigo vou explicar o que entendi após vários estudos.

Seis meses depois, tive contato com uma taróloga de Belo Horizonte, Cristina Bombonato, que acabou se tornando minha amiga. Contei a ela a história das cartas e ela me estimulou a explorar o Tarô. Na época, ela me ofereceu um curso de uma semana, em que pude entender o mecanismo dessa ferramenta tão potente e tão fascinante. Não se iluda, com um curso de uma semana ninguém se torna tarólogo, tão menos se habilita a atender de forma assertiva.

Ulisses e o acaso das cartas

Agora quero ligar minha história com o personagem Ulisses, do filme do Otaviano Costa que citei no início. Na oportunidade, ele tomou um chá e descobriu que seu propósito era ajudar as pessoas a identificarem suas missões, e a coisa aconteceu de forma muito aleatória, ele não foi atrás desse dom. Ele tomou um chá por desespero, eu tirei cartas por brincadeira.

Como já expliquei, eu não fiquei muito impressionado com tudo que estava acontecendo. Achava divertido.

O tempo foi passando, fui tirando cartas e estudando. Cerca de dois anos depois da primeira tiragem de cartas, eu já havia elaborado um sistema de trabalho.

Numa dessas sincronicidades da jornada, aconteceu algo que me deu a certeza de que eu estava no caminho certo. Uma amiga, que também era taróloga por diversão, me pediu para tirar tarô pra ela. Quando chegamos ao fim da tiragem, a reação foi a mesma, de espanto. Ela ficou encantada com a forma que eu conduzia as coisas. Aquela noite para mim foi um marco, o dia em que eu me considerei um mestre iniciante das cartas. 

Esse caminho todo para dizer que eu não escolhi as cartas, pelo menos não foi assim que aconteceu. Nunca havia pensado em tirar cartas como forma de auxiliar as pessoas terapeuticamente. Depois da experiência no sítio, eu não imaginei que a coisa iria tomar rumo como um rio de planície: lento, mas contínuo. Depois dessa tiragem com essa amiga, entendi finalmente como funcionava o que fazia. Criei um caminho de leitura de combinação de cartas que mapeava o que a pessoa estava passando em diversas áreas da vida, onde ela estava perdendo energia e como promover uma reação ou uma mudança.  

Um acontecimento aparentemente banal acabou revelando um caminho que eu não estava procurando.

Quem domina uma arte ou ofício faz o difícil parecer fácil 

LIVROS_SOBRE_A_MESA-1024x333 Minha história: o Tarô e o acaso — quando os dois se encontram

Com o tempo, aquilo que no início parecia apenas uma brincadeira foi se transformando em um ofício. Quanto mais eu estudava, mais percebia que havia uma estrutura por trás daquilo que eu fazia intuitivamente.

Depois de pesquisar muito, notei que seguia uma forma junguiana de ver as coisas. Símbolos, inconsciente coletivo, arquétipos, sincronicidade e leitura de campo. Sou uma pessoa que gosta muito de ler. Sempre gostei de livros sobre autoconhecimento. O primeiro livro que li a respeito e que abriu a minha mente, uns 40 anos atrás, foi O Caminho do Guerreiro Pacífico, escrito por Dan Miilman. É um livro simples, romantizado e quem quer começar a montar sua base intelectual sobre assuntos relacionados, super recomendo.

Foi no período da pandemia que me solidifiquei como profissional. Atendi online pessoas do Brasil inteiro e de fora do país. 

Se você pesquisar um pouco, verá que existem várias formas de atender com as cartas, mas duas aparecem com bastante frequência: o método divinatório e o terapêutico. O divinatório, como o próprio nome diz, se dispõe a adivinhar. Adivinhar o futuro, se ele ou ela vai voltar, se vou ganhar na loteria e todo tipo de perguntas nesse sentido. Já o terapêutico, que é o que pratico, procura compreender as nuances das situações que a pessoa está vivendo naquele momento, ajudando na tomada de decisões, na compreensão de determinados contextos e na busca por soluções. Na minha experiência percebo que, na maioria das vezes, a pessoa já sabe, em algum nível, o que precisa fazer. O problema é que saber não significa conseguir enxergar com clareza. 

O que o universo está te mostrando mas você está dando de ombros?


Pra terminar, quero te fazer uma provocação. Assim como Ulisses do filme, como minhas cartas numa noite de sábado, qual processo “aleatório” está rondando a sua vida e você não está dando muita bola? Repare: não precisa ser algo somente nesse sentido terapêutico. Pode ser um esporte, uma mudança de cidade, de emprego, de relacionamento, de turma, distanciamentos… quer um conselho? Não se apegue demais, mas não jogue nas mãos do universo a responsabilidade dos acontecimentos. Demorei um pouco para começar a trabalhar profissionalmente. Assim que fiz o curso de Tarô, fui a uma livraria, comprei alguns livros e comecei a estudar. O que quero dizer é que, quando comecei a atender, eu já tinha alguma base teórica que me permitia organizar a leitura, ou seja, o universo me mostrou um caminho. Eu não fiquei eufórico, tampouco relutei. Simplesmente segui o processo, dia após dia, e quando percebi, estava atendendo e ajudando pessoas, que é o que mais me dá prazer em tudo isso.

Mensagem final

Depois de tantos anos atendendo, gostaria de deixar uma reflexão que pode parecer óbvia. Temos uma tendência contemporânea, alimentada por roteiros de filmes que exploram a jornada do herói e também por algumas premissas religiosas, de acreditar que tudo dará certo no final.

Mas talvez a vida seja um pouco mais complexa do que isso.

“Preste atenção aos sinais, mas não terceirize sua vida para eles”

Te vejo no próximo artigo para mais um…

Café Arquetípico, abraço!

Jader Vieira

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