Tarô terapêutico: como funciona uma consulta e o que você pode descobrir
Pronto. A partir dos dois primeiros posts do Blog você já deve ter percebido, já deve estar claro que Jader Vieira é um tarólogo, e eu completaria dizendo, profissional. Então vamos nos aprofundar um pouquinho mais no universo desse oráculo fantástico.
Vamos começar do zero. O Tarô é um sistema composto por 78 cartas, divididas em dois grandes grupos: 22 Arcanos Maiores e 56 Arcanos Menores.
Cada carta apresenta imagens, símbolos e personagens que podem ser interpretados de diferentes maneiras (Arquétipos). Os Arcanos Maiores formam uma sequência simbólica que atravessa temas fundamentais da experiência humana — nascimento, escolhas, conflitos, perdas, transformações, poder, conhecimento, relações e tantos outros aspectos da vida. Já os Arcanos Menores estão organizados em quatro naipes e dialogam com a estrutura dos baralhos comuns que conhecemos. Eles apresentam cartas numeradas e figuras da chamada corte. Em alguns sistemas, como o Tarô de Marselha, os Arcanos Menores são predominantemente compostos por símbolos e quantidades; em outros, como o sistema criado por Arthur Edward Waite e ilustrado por Pamela Colman Smith, cada carta recebe uma cena figurativa. Mas não precisamos entrar nisso agora. O que importa, neste primeiro momento, é entender uma coisa: as cartas não são apenas pedaços de papel com desenhos. Elas formam uma linguagem simbólica. E é justamente essa linguagem que torna possível uma conversa entre as imagens das cartas e a experiência de quem está diante delas. É a partir daí que começa uma consulta. Como já expliquei no artigo anteiror, mas vale ressaltar, existem várias formas de atender com as cartas, mas duas são as mais frequentes : o método divinatório e o terapêutico. O divinatório se dispõe a adivinhar. Adivinhar o futuro, se ele ou ela vai voltar, se vou ganhar na loteria e todo tipo de perguntas nesse sentido. Já o terapêutico, que é o que pratico e toda a linha de abordagem desse blog,procura compreender as nuances das situações que a pessoa está vivendo naquele momento, ajudando na tomada de decisões, na compreensão de determinados contextos e na busca por soluções.
Dito isso, retornemos ao título original desse post: Consultar o Tarô? Tudo que você sempre quis saber e nunca teve coragem de perguntar.
Talvez essa seja uma das perguntas mais antigas que o ser humano já fez: O que vai acontecer comigo?
A gente pergunta de muitas maneiras se vai conseguir aquele emprego, se aquela pessoa vai voltar, se meu relacionamento vai dar certo, se devo ou não aceitar essa proposta, se vou ganhar dinheiro, quando minha vida vai mudar e, em algum momento, alguém coloca algumas cartas sobre a mesa e pergunta ao Tarô: “O que o futuro está me reservando?”. Mas será que é realmente o futuro que queremos conhecer? Ou estamos tentando encontrar alguma segurança diante de uma coisa que nos incomoda profundamente, que é não saber?

O desconforto de não saber
Existe alguma coisa particularmente incômoda na incerteza. Quando não sabemos o que vai acontecer, nossa cabeça começa a preencher os espaços vazios. Imaginamos possibilidades, criamos cenários, antecipamos conversas que ainda não aconteceram, ensaiamos perdas, fantasiamos ganhos e às vezes até sofremos por acontecimentos que podem nunca acontecer.
O curioso é que, mesmo quando sabemos racionalmente que não temos como controlar o futuro, continuamos tentando, planejando, calculando, pesquisamos, perguntamos aos outros e, quando nada disso parece suficiente, procuramos uma resposta em algum lugar que nos permita olhar para aquilo que ainda não aconteceu.
É aí que entram os oráculos. E é aí que o Tarô fica interessante.
Talvez você não queira saber o futuro
Imagine que você esteja diante de uma decisão importante.
Você está dividido. Uma parte sua quer ir e a outra quer ficar. Você já conversou com amigos, já pensou em todas as possibilidades, já fez listas, já tentou racionalizar, mas continua sem conseguir decidir, e aí você pergunta: “O que o Tarô mostra?”
À primeira vista, parece que você está pedindo uma previsão, mas existe outra possibilidade. Talvez você esteja procurando uma maneira de olhar para a situação por outro ângulo. Porque uma coisa curiosa acontece quando colocamos uma imagem diante de nós. A imagem não fala literalmente, ela não explica, ela não apresenta uma planilha com prós e contras.
Ela simplesmente está ali, e diante dela, alguma coisa em nós começa a responder.
Como um quadro na parede. Seja um retrato da realidade ou uma pintura abstrata, não passamos os olhos indiferentes. Reagimos à textura, à figura, aos traços, à música das cores, e tudo muito rápido. É impossível ficar indiferente.
Uma lembrança aparece, uma sensação, uma associação, uma pergunta, uma percepção que estava escondida atrás de todo aquele barulho mental.
Talvez o valor da consulta esteja justamente aí, não necessariamente em descobrir o que acontecerá, mas em descobrir o que você estava deixando de enxergar.
O futuro é um lugar estranho
Existe uma pequena ironia na nossa relação com o futuro. Passamos boa parte da vida tentando chegar até ele, e quando ele finalmente chega, vira presente.
E o presente imediatamente se transforma em passado, ou seja, o futuro nunca está onde imaginamos que ele esteja, ele é sempre uma possibilidade, um território que ainda não existe. Podemos fazer planos, criar estratégias, estabelecer metas e tomar decisões melhores, mas ainda assim existe uma parcela da vida que continuará escapando ao nosso controle.
E talvez seja justamente essa parcela que tanto nos incomoda. O acaso, o imprevisto, o encontro inesperado, aquela ligação que você não esperava, a pessoa que aparece, a pessoa que desaparece, uma oportunidade que surge, um caminho que se fecha, ou uma decisão tomada em cinco minutos que muda os próximos cinco anos.
A vida tem uma capacidade impressionante de contrariar nossos planos.
No livro O Andar do Bêbado, Leonard Mlodinow discute justamente a dificuldade que temos para compreender o papel do acaso em nossas vidas. Uma das ideias centrais do livro é que tendemos a procurar padrões e explicações mesmo em acontecimentos nos quais existe uma forte participação da aleatoriedade.
Em outras palavras, temos dificuldade em conviver com o acaso.
Diante de um acontecimento queremos encontrar uma causa, uma lógica, uma explicação.
E talvez seja por isso que os seres humanos tenham criado tantas maneiras de conversar com o desconhecido.
Então o Tarô prevê?
Essa pergunta aparece com frequência, e a resposta depende muito daquilo que você entende por “prever”.
Se a ideia é utilizar as cartas como uma espécie de GPS sobrenatural capaz de informar exatamente o que acontecerá às 17h43 da próxima terça-feira, não é disso que estou falando aqui. Também não me interessa transformar o Tarô em uma máquina de produzir certezas. Na verdade, desconfio bastante das certezas absolutas. Principalmente quando elas aparecem justamente nos momentos em que estamos mais vulneráveis.
O que me interessa é outra coisa.
Deixe-me contar uma história antes de seguir em frente, aliás, essa afirmativa vai aparecer muito daqui pra frente. Acho que as histórias, os “causos”, são muito úteis para nos ajudar a entender os contextos.
Paulo Troncoso foi um reconhecido terapeuta holístico que atuou durante décadas em Brasília. Foi meu terapeuta arquetípico. Caminhamos juntos por mais de 25 anos, até seu falecimento, em 2024, aos 75 anos. Aprendi a respeitá-lo pela maneira responsável com a qual conduzia seus atendimentos guiados pelas cartas do Tarô e pelo alto nível de assertividade de suas leituras.
Certa vez, perguntei a ele por que algumas coisas que apareciam na mesa não se concretizavam ou acabavam tomando outro rumo. Troncoso respondeu na lata: “Por causa do livre-arbítrio”.
As pessoas podem receber dicas, orientações e possibilidades a partir de uma leitura. Podem se reconhecer diante das imagens, perceber padrões e enxergar aspectos de uma situação que talvez estivessem passando despercebidos, mas a decisão de agir de uma maneira ou de outra continua sendo pessoal.
O Tarô, na perspectiva terapêutica que proponho, não deve ser entendido como um mecanismo místico de realização de previsões, mas sim ser compreendido como um mapeador simbólico: apresenta imagens, relações e possibilidades.
As cartas não precisam saber mais do que você
Essa talvez seja uma das ideias mais importantes para entender o Tarô de uma maneira diferente. Não precisamos imaginar que existe uma entidade escondida atrás das cartas esperando para nos revelar alguma coisa. Podemos começar por algo muito mais simples.
Você já sabe mais sobre a sua própria vida do que imagina.
O problema é que saber não significa necessariamente conseguir enxergar. Há coisas que percebemos, mas não queremos admitir. Há desejos que escondemos de nós mesmos. Há decisões que já tomamos internamente, mas ainda não tivemos coragem de assumir. Há situações sobre as quais sabemos exatamente o que deveríamos fazer, mas continuamos procurando uma autorização externa para fazê-lo.
Talvez, em determinados momentos, uma consulta não coloque uma resposta dentro da nossa cabeça. Talvez ela apenas crie condições para que uma resposta que já estava lá consiga aparecer.
E isso é muito diferente.
O oráculo como espelho
Gosto de pensar nos oráculos dessa maneira. Não como uma janela mágica para o futuro, mas como uma espécie de espelho simbólico. Um espelho não inventa o rosto que está diante dele, ele apenas devolve uma imagem.
Com as cartas acontece algo curioso, como o quadro na parede. A emoção que ela desperta ao ser revelada e a carga de emoção sensorial que ela libera.
A mesma carta pode despertar sentimentos diferentes, e sobre isso falarei mais tarde, quando abordarmos os arquétipos. Por hora, é importante entender que a linguagem simbólica ajuda a construir o entendimento da situação.
E talvez essa seja uma das coisas mais interessantes que um oráculo pode fazer por nós. Não dizer simplesmente o que vai acontecer, mas nos ajudar a perceber o que está acontecendo.
Que possamos caminhar juntos e entender um pouco mais sobre nós mesmos.
Esse é meu sincero desejo.
Até a próxima.
Jader Vieira

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